21/08/2013
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Na carreira, é preciso não só aprender a falar, mas também a ouvir

UOL/Reinaldo Polito

Há um texto de Rubem Alves que faz muito sucesso. E faz sucesso porque é admirável. O título é "Escutatória". A pena brilhante do escritor nos leva a refletir sobre a importância do silêncio. De como podemos aprender sem dizer palavras, e, também, sem ouvi-las. Apenas deixando que o silêncio de fora se encontre com o silêncio que está dentro de nós mesmos.

O autor inicia sua reflexão com uma informação de forte impacto: "Sempre vejo anunciado cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular".

Em suas ponderações o autor diz: "Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia". É, sem dúvida, a oportunidade de aprendermos. Sem contar que quando fazemos silêncio depois de o outro ter falado também demonstramos respeito e consideração pelo que escutamos.

Saber ouvir e escutar, portanto, é ter respeito pelo outro, oportunidade de aprender e o encontro da pessoa com ela mesma. Se saber escutar é tão importante, por que algumas pessoas não escutam?  Entre muitas causas estão a vaidade, o orgulho, a arrogância e o fato de alguns não terem mesmo consciência da importância de escutar.

Por ser teólogo, filósofo e psicanalista não é de admirar que parte das conclusões de Rubem Alves nasceram quando esteve em um mosteiro suíço. Segundo seu relato, ali durante as refeições não deixavam de falar, mas falavam pouco. E nas liturgias de que participava três vezes ao dia o silêncio era absoluto.

Ficou encantado com o ambiente silencioso. Não ter a obrigação de conversar com os vizinhos de mesa durante as refeições lhe proporcionou momentos de felicidade. A maneira competente como descreveu o cenário calmo, tranquilo e aconchegante daquela experiência transporta o leitor para um clima de paz e bem-estar. Impossível não se apaixonar pelo silêncio no final da leitura.

Outro autor, Maurice Maeterlinck, prêmio Nobel de literatura em 1911, também fala de forma magistral sobre a importância do silêncio. Em sua obra "O tesouro dos humildes", publicado em 1896, o escritor belga diz: "Dir-se-ia que sua alma não tem face. Nós não nos conhecemos ainda, escrevia-me alguém que eu muito amava; não tivemos ainda coragem de nos calar juntos".

Parece também que na boca de Maeterlinck esta frase da sabedoria suíça não dá a impressão de ter sido tão surrada: "a palavra é de prata e o silêncio é de ouro". E segundo sua maneira mais apropriada de refletir sobre o tema: "a palavra é do tempo, o silêncio é da eternidade". Acrescentou ainda que "as abelhas só trabalham no escuro; o pensamento, no silêncio; e a virtude, no segredo".

Entretanto, cuidado! Embora não haja dúvida sobre a importância do silêncio e da relevância de saber escutar, a vida não costuma premiar quem só escuta e fica em silêncio. Dependendo das funções que exerça ou que pretenda exercer, as pessoas não esperam que entre mudo e saia calado de uma reunião importante. Há expectativa de que você diga algo. E algo relevante.

Mesmo que não tenha nada para dizer, ouça atentamente o que estão debatendo e faça algum comentário a respeito dos temas que estão sendo discutidos. Dessa forma, sem ficar quieto quando deveria se manifestar se mostrará interessado e participativo.

O segredo está em saber o instante certo para ouvir, para ficar em silêncio e para falar. Se você aprender a falar na hora certa e souber escutar e ficar em silêncio no momento apropriado, encontrará o equilíbrio de que precisa para se relacionar e se comunicar bem com as pessoas.

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