15/05/2013
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Filho tem ideia, costureira cria fábrica no sertão da BA e vende a 15 estados

G1

Foi com o “empurrão” do filho, em 2010, que a costureira Geovania Maria de Arruda Siqueira, de 43 anos, criou coragem e ampliou uma confecção de roupas que mantinha há mais de 20 anos em um “puxadinho” dentro de casa para montar uma fábrica que hoje emprega 25 pessoas em Paulo Afonso, às margens do Rio São Francisco, no interior da Bahia. O faturamento ultrapassou R$ 600 mil em 2012 e a expectativa é aumentar o resultado em 80% neste ano.

No meio do sertão baiano, a Clara Arruda, voltada ao público feminino, produziu 23 mil peças entre blusas, saias e camisas no ano passado – com expectativa de chegar a 30 mil neste ano. Os produtos são vendidos atualmente para 15 estados brasileiros – Pernambuco, Alagoas e Paraíba respondem por 60% do faturamento.

A ideia de abrir a fábrica começou quando o filho de Geovania, Caio de Arruda Siqueira, de 26 anos, usou a experiência da mãe como costureira em projetos durante a faculdade de administração que fez em Pernambuco.

Após se formar, resolveu colocar os conhecimentos em prática. “Sempre tive vontade de ter a minha própria empresa. Vi que através de minha mãe isso seria possível. Minha graduação toda foi voltada para a realização desse sonho." A marca é homenagem a uma prima, de mesmo nome.

A fabrica foi construída em um terreno vizinho à casa da família na cidade, que tem pouco mais de 100 mil habitantes. Foram investidos aproximadamente R$ 500 mil que Geovania guardara, aos poucos, durante todos os anos de trabalho. “Faz mais de dois anos [que a fábrica foi construída] e já está ficando pequena”, avalia a empresária. 

Antes disso, ela chegou a ter 12 máquinas para 8 costureiras no andar de cima da casa da família, que, segundo a empreendedora, “não era usado para nada útil”. “Mas meu esposo [que é dentista na cidade] ficava reclamando, ficava tudo muito bagunçado”, diz.

Na varanda

De Cumaru, no interior de Pernambuco, Geovania começou a trabalhar como costureira em 1988, na varanda se sua casa, após se mudar para Paulo Afonso por causa do marido, que era da cidade e queria exercer a profissão de dentista por lá mesmo. Ela começou a costurar acessórios de roupa infantil para a irmã, que tinha uma pronta-entrega em Caruaru. “Foi uma época em que Caruaru estava no auge, Caruaru é muito famosa pelo comércio de confecção”, diz.

A parceria com a irmã durou até 2010. “Comecei a fazer acessórios para criança, depois camisaria, depois mudei para roupa infantil, depois fui para roupa feminina”, conta. A vontade de ter a fábrica própria ocorreu por vários motivos. “Lá são três irmãs e minha mãe. Eu era 40% da empresa e elas 60% (...). Às vezes eu tinha uma ideia em que apostava muito e elas não, aí a gente resolveu que seria melhor separar”, explica.

'Tudo é possível'

Geovania revela que não planejava o crescimento e muito menos ainda ter uma fábrica própria. “A demanda nacional foi aumentando e acho que na época não tinha tanta oferta (...). Eu nunca pensava [em ter uma fábrica um dia], primeiro pelas condições financeiras, segundo porque ninguém aqui tinha. Quando você vê aqui, a gente nessas condições, entende como tudo é possível, só exige tempo e capital”, diz.

As condições que a empresária se refere são problemas de localização e mão de obra. Para comprar matéria-prima, ela precisa ir até Recife olhar o mostruário e o material é entregue por uma transportadora. Os produtos são enviados aos clientes pelos correios. “Enfrentemos muitas dificuldades, principalmente devido ao clima, mão de obra qualificada e logística, assistência técnica, porém somos felizes aqui.” Segundo ela, por conta do calor, é preciso climatizar a fábrica.

Com relação à mão de obra, Geovania precisa formar as costureiras. “A gente ensina, tudo é muito difícil, tudo é a gente que tem qualificar.”. Além disso, ela também pega serviços de fora, como de bordadeiras da região. De acordo com Caio, o trabalho terceirizado envolve cerca de 60 pessoas envolvidas indiretamente na produção, principalmente nas peças com detalhes artesanais. A empresária diz que também tem uma parceria com o presídio da cidade. “Eu peço as peças e 5% da minha produção eles fazem”, revela.

A empresária diz que, atualmente, consegue fazer constantes viagens a São Paulo e até mesmo a Nova York para ver as tendências de moda. “A gente já está num nível bem mais organizado”, diz. “Para ganhar mercado hoje tem que ter qualidade. O nosso diferencial é o acabamento. Tenho cliente que trabalha com marca famosíssima e diz que encontra problema, mas não tem problema com nosso artigo”, relata.

No varejo, o preço médio das peças é de R$ 100, mas há produtos a partir de R$ 60 e a linha festa possui itens que podem chegar a R$ 250. A empresa também faz vendas pela internet. “A peça que tem maior giro é uma baby look decote V, que é uma peça ‘coringa’ (...) e a nossa linha de camisaria que é bastante procurada”, afirma Caio. “O nosso principal cliente é a região de Pernambuco, em shopping, galerias, onde nosso produto é bem aceito (...). A gente evita vender em locais muito populares, e primeiro porque o preço não é tão baixo, por conta da qualidade”, afirma Geovania.

Novos mercados

Além do filho, a filha de Geovania também tem envolvimento com a empresa. Ela estudou moda e faz alguns modelos. Atualmente, contudo, está viajando para estudos no exterior, revela a empresária.

Caio conta que trouxe amigos da faculdade para ajudar na gestão da empresa. “Terminei a graduação e três amigos acabaram se juntando a nós na execução desse projeto". Dois não trabalham mais na empresa, mas um deles permancece.

De acordo com Geovania, a chegada do filho e amigos trouxe mudanças estruturais. “Foram criados setores que não existiam, a gente começou a aumentar a produção (...). Ele me ajudou bastante, na produção, na criação. A gente não tinha mão de obra qualificada, principalmente para essas áreas novas, como financeiro, marketing”, explica.

O filho, por sua vez, disse que pensou na estrutura ainda durante a faculdade. “Minha graduação foi toda voltada para a empresa. A planta da fábrica foi realizada na minha disciplina de produção. As políticas de RH na disciplina de recursos humanos, e assim sucessivamente”, explica Caio.

Para o crescimento, são trabalhadas duas frentes: uma na produção e outra na venda. “Acredito que todo crescimento requer, antes de tudo, bases sólidas. Por isso, estamos estruturando a empresa internamente para que ela seja capaz de suportar a nova demanda”, diz Caio.

Uma das estratégias tem sido associar a marca com a região da empresa, no sertão baiano. “Nessa campanha do verão, para a nova coleção, a ideia é trabalhar com o Brasil, focando no Rio São Francisco”, diz o filho empresário. “Trabalho a ideia de que as peças da Clara Arruda não são commodities e sim peças de valor agregado (...). A etapa de expansão visa aumentar a presença na marca em todo o Brasil e posteriormente no mercado internacional”, avalia Caio.

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