30/10/2013
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15 milhões na quarta idade

Correio Brasiliense

Eles se aposentaram, viram os netos crescerem, estão para lá de acostumados com as rugas e os cabelos brancos, mas ainda têm muito para viver. Os idosos com mais de 80 anos — a chamada quarta idade — já são 3 milhões no país e, em breve, somarão muitos mais. A estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é de que eles cheguem a 15 milhões, o equivalente a 7% da população, em 2050. Um número tão grande de pessoas nessa faixa etária deve exigir do país uma mudança radical.

Segundo os especialistas, tudo deve ser modificado: dos serviços básicos, sobretudo em relação à saúde, ao sistema de previdência e à educação dos profissionais que atendem esse público, além da forma como o idoso é encarado pela sociedade. Os números não deixam dúvidas: logo mais, teremos uma sociedade de cabelos brancos. Se for considerado o recorte temporal de um século, entre 1950 e 2050, a projeção é de que a quantidade de brasileiros com mais de 80 anos terá crescido 26 vezes. Em contrapartida, o número total da população deve aumentar 3,7 vezes.

Para Dalmer Hoskins, que ocupou o posto de secretário-geral da Associação Internacional de Seguridade Social por 17 anos, passar a tratar os mais velhos como pessoas ativas e parte integrante da sociedade é o primeiro passo. "Não há nenhum indicativo de que essa camada da população fique menos produtiva. Por isso, não se justifica o argumento que muitos setores utilizam de que não há como sustentar uma sociedade tão idosa", pontuou ele durante o Fórum da Associação Mundial de Demografia, no Rio de Janeiro.

As estimativas do ponto de vista econômico são uma preocupação para vários setores, que tentam encontrar alternativas. O Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2014 prevê, para 2050, por exemplo, uma despesa de R$ 2,02 trilhões para o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) em comparação com uma arrecadação de pouco mais de R$ 1 trilhão. Os gastos com saúde pública relativos aos idosos devem subir de 33% do total, em 2010, para 44% em 2030.

Os planos privados, por sua vez, verão esse número saltar de 27% para 42% no mesmo período. "O Brasil está enfrentando mudanças demográficas que os países da Europa já viveram muito tempo atrás. Não é só longevidade, é uma taxa de natalidade mais baixa. Até 2050, a população do Brasil deve se estabilizar. A combinação desses dois fatores vai fazer o gasto subir para a saúde", comenta o presidente da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde) e da Bradesco Saúde, Márcio Coriolano.

Prevenção

Para a geriatra Linda Fried, reitora da Escola de Saúde Pública da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, a palavra-chave é prevenção. O investimento em programas de promoção da saúde tem sido a alternativa encontrada pelas operadoras de planos privados para minimizar o impacto de um número elevado de pessoas da terceira e da quarta idades na carteira. Além disso, o setor aposta na aprovação do VGBL Saúde (veja matéria abaixo), um plano de previdência que vai permitir ao cidadão financiar as mensalidades dos convênios mais à frente.

A área de saúde é uma das mais atingidas pelo aumento da longevidade, sobretudo porque, conforme envelhecem, as pessoas usam mais esse tipo de serviço. Dados divulgados pela professora Linda Fried mostram que a probabilidade de alguém ter doenças crônicas aumenta 80% quando se tem mais de 80 anos. Além disso, 68% da população com mais de 85 anos têm dificuldade para andar. "Todo mundo quer tomar um comprimido, mas não existe remédio. Manter-se ativo parece ser a melhor forma de postergar a incapacidade", afirma.

Na reserva militar, José Carvalho, 90 anos, vibra por estar com o bem-estar em dia e conta o segredo próprio. "Primo sempre por fazer as coisas da maneira correta", revela. "Só fiz recentemente algumas sessões de fisioterapia por conta de uma fratura no ombro", acrescenta.

Para lidar com as fragilidades típicas da idade avançada, é necessário investir em uma educação diferenciada para médicos e enfermeiros, alerta Linda. Porém, a medicina atual ainda é muito voltada à criança. O ex-diretor do Departamento de Envelhecimento e Saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS) Alexandre Kalache argumenta que os estudantes estão sendo treinados para o século 20 e não para o 21, ainda com foco em cuidados neonatais.

Três perguntas para Márcio Coriolano, presidente da FenaSaúde

A longevidade crescente dos brasileiros vai pesar cada vez mais nas contas das operadoras de saúde. O que está sendo feito para minimizar o problema?

Na FenaSaúde, nossos maiores investimentos estão sendo dedicados a programas de promoção de saúde e de prevenção de doenças. Eu acho que esse é o instrumento que pode ser mais efetivo. A ANS tem incentivado isso, mas nós achamos que são necessários mais incentivos.

Por exemplo?

Hoje a agência não permite que as pessoas sejam premiadas individualmente por ter aderido a programas de promoção da saúde e prevenção de doenças. Só pode ser beneficiado o conjunto de pessoas da carteira em que aquela pessoa está incluída. Isso está na contramão do que está sendo feito em todo o mundo.

Qual é o maior desafio do setor hoje?

A inflação médica, que é diferente da inflação normal. Medicamentos que entram no mercado, tecnologia, tudo é bom para o consumidor, mas custa caro. A ANS regulamentou agora o PetScan, que é o suprasumo do diagnóstico por imagem. Alguém perguntou para a sociedade se ela quer pagar por isso?

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